O Alfredo costumava dizer-nos, a nós salteadores dos afectos alheios, que só tinha medo da morte quem nunca tivesse nascido. E logo ele, que nem sequer tinha o escudo da demência para o proteger dos olhares condescendentes que nos sentíamos obrigados a deixar-lhe à porta das palavras. Logo ele. Nunca percebi muito bem como não se pode ter medo da morte. Um dia estamos aqui, e noutro fugimos das pessoas que mais gostamos. É isso que nos amedronta. Morrer sem poder levar todas as comodidades que vamos apinhando enquanto vivemos. As pessoas. Os sentimentos. Os sorrisos de sexta-feira à tarde. Até os enganos de sábado à noite se nos fazem em falta quando vamos. E nisto, não é o medo que sentimos. Se calhar é o apego que temos aquilo que julgamos nosso. Tenho-me recordado muitas vezes das palavras do Alfredo. Agora, que ando para aqui a tentar passar entre os dias sem que as noites me apanhem, tenho o tempo necessário para pensar nessas coisas do fim. Desbasto um pouco o que se diz, compondo com o sal do que se faz, e chego à conclusão que ele tem toda a razão.
Ontem, passei pela porta de uma pastelaria e uma senhora cá fora, coberta por uma grossa camada de sujidade tinha a mão estendida. Olhos vazios, via em quem passava mais uma oportunidade que se lhe fugia entre os dedos cerrados da mão. Para ela, não somos nada, apenas oportunidades perdidas. Porque estendia ela a mão de dedos cerrados, se nada existia para passar por entre eles? O curioso, mesmo para quem está habituado a observar, é que me apercebi da mulher, dez metros depois de passar por ela, e mesmo assim, mesmo tendo percebido que estava lá atrás alguém, segui em frente de passo seguro. Muito depois de passar por ela, aquele ser mirrado de não ter, ainda vinha atrás de mim. Eu, de passo largo e decidido, e ela atrás de mim. Não me largou mais.
Compreendo o Alfredo. Hoje, um dia depois de não ter visto a mulher que se mostrava atrás daquela mão estendida como uma garra que se cola à vida com a pouca força que ainda tem, compreendo as pessoas que afinal não têm medo de morrer. A Morte, não é nada demais. É um acontecimento. As pessoas estão aqui, e depois já não estão. Calha.
Hoje já não tenho medo de morrer, mas aquela mão, estendida no vazio fez-me perceber que tenho muito medo de ir desaparecendo aos bocados. Hoje as pessoas dão por mim. Amanhã apenas as pessoas que eu gosto sabem que eu existo. Na semana seguinte apenas as pessoas que me querem dão pela minha falta. E depois, quando estas acabarem, é o fim. Mais do que nunca hoje morremos assim. Como um pôr do sol com nuvens. Não o podemos evitar mas vamos desaparecendo aos bocadinhos, sem ninguém dar por isso. Nem nós.
Não é o medo de morrer que me leva a pensar no Alfredo que já partiu. É o pavor de como aquela senhora de ontem à porta da pastelaria, eu andar a desaparecer aos bocadinhos. Um dia destes, as pessoas darão por mim dez metros depois de passarem à minha frente, e eu vou atrás delas. Depois… bem depois, chega ao momento em que já não vou, e aí é melhor que eu tenha vivido o suficiente para já não ter medo de morrer, até porque há muito que aos olhos dos outros eu deixei de existir.