Senhor do Mal

Ao fundo da noite, o lado errado da fantasia.

10 Novembro, 2009

Noite...

José Luis Cunha

Como te poderei dizer meu amor?
Que o meu sexo é, em ti, punhal
Que entra incandescente em desejo
e na tua carne desce até onde a alma se esconde
da vida que te roubo
sempre que os teus olhos se abrem contra os meus
e no pedido surdo que a tua boca deixa fugir
me sobram em sussurros as palavras
Que o teu sabor me deixa na boca
todas as noites que me visto na tua pele.
Deixa deslizar.
O amanhã, nasce todos os dias!


30 Outubro, 2009

Crónica Maldita, ou como diría um amigo com queda para o rigor: Mal escrita.

O Alfredo costumava dizer-nos, a nós salteadores dos afectos alheios, que só tinha medo da morte quem nunca tivesse nascido. E logo ele, que nem sequer tinha o escudo da demência para o proteger dos olhares condescendentes que nos sentíamos obrigados a deixar-lhe à porta das palavras. Logo ele. Nunca percebi muito bem como não se pode ter medo da morte. Um dia estamos aqui, e noutro fugimos das pessoas que mais gostamos. É isso que nos amedronta. Morrer sem poder levar todas as comodidades que vamos apinhando enquanto vivemos. As pessoas. Os sentimentos. Os sorrisos de sexta-feira à tarde. Até os enganos de sábado à noite se nos fazem em falta quando vamos. E nisto, não é o medo que sentimos. Se calhar é o apego que temos aquilo que julgamos nosso. Tenho-me recordado muitas vezes das palavras do Alfredo. Agora, que ando para aqui a tentar passar entre os dias sem que as noites me apanhem, tenho o tempo necessário para pensar nessas coisas do fim. Desbasto um pouco o que se diz, compondo com o sal do que se faz, e chego à conclusão que ele tem toda a razão.
Ontem, passei pela porta de uma pastelaria e uma senhora cá fora, coberta por uma grossa camada de sujidade tinha a mão estendida. Olhos vazios, via em quem passava mais uma oportunidade que se lhe fugia entre os dedos cerrados da mão. Para ela, não somos nada, apenas oportunidades perdidas. Porque estendia ela a mão de dedos cerrados, se nada existia para passar por entre eles? O curioso, mesmo para quem está habituado a observar, é que me apercebi da mulher, dez metros depois de passar por ela, e mesmo assim, mesmo tendo percebido que estava lá atrás alguém, segui em frente de passo seguro. Muito depois de passar por ela, aquele ser mirrado de não ter, ainda vinha atrás de mim. Eu, de passo largo e decidido, e ela atrás de mim. Não me largou mais.
Compreendo o Alfredo. Hoje, um dia depois de não ter visto a mulher que se mostrava atrás daquela mão estendida como uma garra que se cola à vida com a pouca força que ainda tem, compreendo as pessoas que afinal não têm medo de morrer. A Morte, não é nada demais. É um acontecimento. As pessoas estão aqui, e depois já não estão. Calha.
Hoje já não tenho medo de morrer, mas aquela mão, estendida no vazio fez-me perceber que tenho muito medo de ir desaparecendo aos bocados. Hoje as pessoas dão por mim. Amanhã apenas as pessoas que eu gosto sabem que eu existo. Na semana seguinte apenas as pessoas que me querem dão pela minha falta. E depois, quando estas acabarem, é o fim. Mais do que nunca hoje morremos assim. Como um pôr do sol com nuvens. Não o podemos evitar mas vamos desaparecendo aos bocadinhos, sem ninguém dar por isso. Nem nós.
Não é o medo de morrer que me leva a pensar no Alfredo que já partiu. É o pavor de como aquela senhora de ontem à porta da pastelaria, eu andar a desaparecer aos bocadinhos. Um dia destes, as pessoas darão por mim dez metros depois de passarem à minha frente, e eu vou atrás delas. Depois… bem depois, chega ao momento em que já não vou, e aí é melhor que eu tenha vivido o suficiente para já não ter medo de morrer, até porque há muito que aos olhos dos outros eu deixei de existir.

19 Outubro, 2009

Crónica escrita a um pobre coitado.

Tenho andado a tratar de mim. Uma boa nova, esta notícia em que o personagem principal ganhou o direito aos domingos de manhã e o sono conquistou os sábados à noite. Nem de propósito, ontem nasceu-me mais uma ruga, daquelas que começam a um canto do olho e se e se deixam morrer cansadas quando chegam à alma. Bem vistas as coisas, foi uma ruga e meia dúzia de cabelos brancos. Acho servem como moldura ao tempo que deixo passar entre os dedos. Primeiro um minuto, depois outro, e de repente já passaram anos desde a última vez que me reconheci ao espelho. Deixo passar o tempo. O tempo não faz mal a quem não o quer para nada. Afinal, tenho-me tratado bem. Até já conquistei os domingos de manhã aos sábados à noite. Se calhar a ruga não me nasceu ontem... se calhar nasci com ela cá dentro e passados todos estes anos consigo ver mais do que aquilo que julgo perceber do outro lado do espelho. Não te preocupes que tenho andado a tratar de mim. Não viste ontem? Chegada a meia noite fui deitar-me. Apaguei as luzes e fui enroscar-me aos sonhos. E tem sido sempre assim. Chegada a meia noite, vou ter contigo. Visto-me com a tua pele, sinto o teu cheiro e adormeço.
No outro dia reparei que já não me sou estranho. Habituei-me a mim mesmo. Tanto lutei contra isto que me corre cá dentro, que acabei por sucumbir. Cansado, já consigo conversar comigo mesmo enquanto como, ás vezes quando faço a barba, outras quando me sento à minha frente. Dizem-me que é da idade. Que passado um tempo, acabamos por nos fazermos a nós mesmos. Que o vento já não nos leva os pensamentos, e os minutos adormecem de tédio ao lado das palavras que somos incapazes de nos dizer. Eu, acho que afinal nem sou assim tão má companhia para mim mesmo. Tirando aquelas coisas que nem eu sou capaz de perceber, sou um gajo suportável. Não sendo a pior pessoa do mundo, e estando felizmente longe de ser a melhor, acabo por ser um vulgar tipo de pessoa com a qual não se pode contar, mas a quem se pode confiar um segredo Afinal, não falo com toda a gente, e quando falo, às vezes é a mim que quero convencer. Tenho andado a tratar-me bem. Tudo certo. Tudo direito. Tudo!
Só é pena que nao andes por aqui. Ias perceber o diferente que estou. Tenho pena que não possas escutar os meus silêncios. Ias perceber que agora os silêncios já não são a ausência de som. Tenho pena que não possas preencher os meus vazios com as tuas palavras, e que nos escapassemos de um constrangimento com uma sonora gargalhada cujo sentido nós não quisessemos perceber. Onde foste pá? Onde te escondeste? O que é feito de ti? Tens-te tratado bem? Tenho saudades tuas. Daquelas noites em que ficávamos acordados até que o sol nos empurrasse para dentro. Das conversas que tinhamos os dois até que nos secasse a garganta de tanto não falar. Tenho saudades, percebes? Sau-da-des!
Tenho-me tratado bem. Agora acho que sou apenas um. Já não andas por aí. Eu já não tenho medo do outro lado do espelho, e tu saíste sem bater com a porta. Afinal aquele tipo que está ali, enquanto esfrego os olhos ao domingo de manhã, não é o que resta do sábado à noite. Parece-me estranho mas estou-lhe acostumado. Fala de maneira estranha mas percebo-o perfeitamente. E olha-me de frente, com o desplante corajoso de quem me conhece bem. Acho que nem é mau tipo... tem é uma ruga que lhe nasce no olho e cansada, preferiu morrer encostada à alma... Coitado.

02 Setembro, 2009

Bocados (#1)





Anna – No fundo, apenas se quer que as palavras se cravem como facas aguçadas na pele até tocarem o desejo. E o sangue quente, que jorra como um rio pelo corpo que ocupamos, serve para nos lavar das vontades que sempre renegámos… vícios que não nos permitimos sentir. Somos aquilo que desejamos. Somos os pensamentos que escondemos e nunca os que mostramos. Somos os gestos que rejeitamos e nunca o que fazemos. Cremos que nos vemos nos olhos dos outros, mas nunca somos aquilo que queremos… apenas aquilo que nos julgámos habituados a ter.
Amanhã, meu querido, nascerá a vontade no sítio onde matámos o desejo. As palavras já não serão facas e o sangue… inerte… já não te aquecerá como antes. Amanhã… Amanhã, não será outro dia, mas simplesmente o que resta deste… em que ficámos presos.
Phill – Então porquê isto?
Anna – Ahahaa. Julgava que perceberias meu querido. Afinal o jogo é teu… as regras são tuas. Não me preferiste sempre discreta? A viver calando a vontade? Quase morta?! Então, querido!? Eu prefiro-te morto do que feliz.
Phill – Egoísmo! Por não me teres…
Anna – Cala-te! Nunca percebeste nada. Nunca quiseste saber nada. Nunca irás perceber as coisas do amor. É por amor que o faço. Por amor percebes. Por amor!! A tua memória viverá para sempre, apenas o teu corpo morrerá aos poucos. Não querias ser imortal?

18 Agosto, 2009

Voar...

Foto: José Luis Cunha


Deixo-me quedo. Mudo. Imóvel. Até cá dentro estou estático. Árido. Planície sem sombra. Tenho medo de te assustar. Um movimento e… fico assim, em silêncio, a contemplar-te nas sombras que esvoaçam pela minha memória, se deitam no tapete encarnado, que se colam nas paredes da sala despidas de fotografias e de sorrisos. Tenho medo de assustar-te, por isso fico assim, à espera que continues a viver onde de nunca te conseguirei arrancar. Em mim vives. Em ti, deixei partir a alma. É altura de deixar voar as letras.